Gerente de Pasto

Gestor de Pastagens, uma nova profissão

Autor: Josmar Almeida Junior, Zootecnista MSc.

Metade dos 45 a 50 milhões de hectares de pastagens da região dos cerrados apresenta algum grau de degradação, em consequência de manejo inadequado. O capim começa a perder o vigor, a produtividade diminui e a pastagem não consegue mais sustentar os animais. Faltam produção e qualidade nutricional. Ervas invasoras se alastram, pragas causam grandes estragos e as plantas não resistem às doenças.

Perder pasto significa perder renda. Cada touceira de capim que não corresponder aos níveis esperados de produção e qualidade nutricional estará prejudicando o resultado econômico da propriedade. O ganho obtido com o treinamento e a atuação de um técnico especializado em manejo de pastagens é maior que o investimento empregado para tais funções. Mas pouquíssimas fazendas brasileiras contam com esse profissional.

As tecnologias de manejo de pastagens são as mais utilizadas nas fazendas de pecuária. Por ser uma atividade diária, sua importância mal é notada. Do ponto de vista científico, a pastagem compreende todo o ambiente em que o pasto está inserido. Abrange o manejo de bebedouros, árvores para sombreamento, manutenção de cercas, pragas, doenças, invasoras, etc.

Atualmente exige-se esta função da mão-de-obra empregada no manejo dos animais, o que fatalmente promove resultados negativos, devido ao intenso trabalho para a função, e consequentemente, desvios de foco e de tempo de mão-de-obra em atividades relacionadas ao manejo de pastagens.

A qualidade do manejo das pastagens está intimamente ligada à da mão-de-obra existente na fazenda. Exige decisões diárias, que repercutem no sistema de produção e na lucratividade. Mas a grande maioria das propriedades ainda se vale de procedimentos não-científicos, não raro orientados somente pelo costume. É comum ouvir-se: “lá na outra fazenda eu sempre fiz assim”, ou “eu nasci em fazenda e sei como se faz”, ou ainda “na fazenda do seu Fulano eles fazem assim e dá certo.” Não se trata de desqualificar a cultura popular, mas sim de reconhecer que métodos empíricos não são o melhor caminho para empreendimentos que buscam o sucesso.

Um ótimo método em gestão de pastagens é o emprego do ciclo PDCA para a obtenção de qualidade total. A proposta de criar a profissão de gestor de pastagens diz respeito às partes mais exaustivas da implantação daquele ciclo, as fases D (do – executar) e C (check – avaliar). Tais etapas exigem treinamento e disciplina na coleta e verificação dos dados. Esse é o estágio em que muitos projetos de implantação da qualidade total desabam, com as justificativas mais variadas. O que se observa, no entanto, é a falta de profissionais competentes para o desempenho das tarefas necessárias nessas fases.

Consequências da falta do gestor de pastagens

O gestor de pastagens é responsável pela observação de determinados índices. Naturalmente sua atividade tem um custo em homem-hora, e demanda recursos financeiros. Mas a falta de quem monitore os indicadores acarreta perdas muito maiores no desempenho por animal e por hectare, como se mostrará.

O desempenho animal em capins do gênero Brachiarias e Panicuns está relacionado com a disponibilidade de pasto verde, como mostra um compilado de trabalhos da Embrapa. O desempenho não é linear, como se pode ver nos Gráficos 1 e 2.

Desempenho e Disponibilidade de Pasto em Brachiarias
Gráfico 1 – Relação entre desempenho animal e disponibilidade de pasto verde em Brachiarias (média ano)
Desempenho e Disponibilidade de Pasto em Panicus
Gráfico 2 – Relação entre desempenho animal e disponibilidade de pasto verde em Panicus (média ano)

Como se observa, o desempenho cresce percentualmente na fase 1, em ambos os capins, e torna- se decrescente na fase 2. Na fase 3, atinge a saturação, isto é, a disponibilidade de pasto verde não aumenta proporcionalmente o desempenho.

O gestor de pastagens estaria acompanhando a oferta de pasto verde, condição associada à altura do pasto, e orientaria as metas de desempenho por animal nas diferentes categorias (cria, recria e engorda), explorando os benefícios das fases 1 e 2. Na fase 3, aproveitaria para aumentar o desempenho por área, uma vez que a disponibilidade de pasto verde permite o aumento de lotação sem afetar o desempenho animal.

Explorar a relação entre causa e efeito é função do gestor. Sem esse profissional, só o que se tem é o comentário subjetivo “o pasto está bom” ou “o pasto está ruim”. O gestor saberá quando e como explorar as vantagens do “pasto ruim” e do “pasto bom”. A forma mais prática – e cientificamente comprovada – de monitorar o pasto é a medida da altura média das folhas. A partir dessa informação, pode-se definir as categorias e as lotações adequadas, pois seus efeitos também se expressam na qualidade nutricional, como mostra o Quadro 1.

Altura e Qualidade Nutricional Mombaça
Quadro 1 – Efeito da altura pré-pastejo na qualidade nutricional de capim Mombaça
Adaptado de Bueno 2003; período jan/2001 a fev/02 considerando 1 UA com consumo de 2,3% do PV/MS/dia

O Quadro 1 mostra que o capim-mombaça com 88 cm de altura média proporciona acréscimos de 2% de proteína bruta (PB) e 3% de nutrientes digestíveis totais (NDT) na dieta dos animais. Sendo assim, o emprego da mão-de-obra do manejador de pastagem na coleta da altura média do pasto pode proporcionar em torno de 0,46 kg/dia de farelo de soja e 0,414 kg/dia de milho no prato do boi por dia.

O exemplo acima facilita o entendimento dos benefícios que o manejador de pastagens pode proporcionar. Os efeitos citados, que determinam a eficiência e a produtividade em sistemas de produção em pastagens, ocorrem diariamente e variam conforme a época do ano.

Ferramentas de qualidade do manejador de pastagens

As ferramentas de qualidade permitem constatar as relações de causa e efeito dos processos executados numa empresa. Permitem, ainda, padronizar os processos e atribuir responsabilidades, como as do gestor de pastagens.

A ferramenta diagrama causa e efeito

Uma das mais importantes ferramentas de qualidade é o diagrama de causa e efeito. Seu uso propicia a visualização, ampla e em conjunto, das causas principais e secundárias de um efeito. Sua construção exige que se estabeleça claramente o efeito a ser analisado. Pede-se à equipe que descreva as possíveis causas, para em seguida agrupá-las em categorias. A forma mais utilizada de agrupamento é chamada 4M, na qual as causas são máquinas, mão-de-obra, métodos e materiais. O diagrama mostrado na Figura 3 é uma adaptação para um sistema de pastagens, no qual o agrupamento 4M consiste em:

Mão-de-obra: gerência (planejamento estratégico e tático) e colaboradores (planejamento operacional);
Método: estruturas físicas (forrageiras, cercas e bebedouros), planejamento estratégico, tático e operacional (treinamento);
Máquinas: entendemos o pasto como a máquina, com suas características; e
Materiais: o gado compõe os materiais que são transformados no produto final.

A ferramenta 4Q1POC

O estranho nome é apenas um recurso para memorização. São quatro palavras iniciadas por Q, uma por P, uma por O e uma por C. A ferramenta auxilia no planejamento das ações que o manejador de pastagens desenvolverá. Permite expor com clareza quais as ações a executar, por que são executadas, quem as executa (o próprio manejador de pastagens, no caso), quando, onde e como (passo a passo) serão executadas, e, finalmente, quanto será gasto com a execução.

A resposta relativa a onde a ação será executada é dada pelo planejamento tático, relacionada como subcausa no item método, na Figura 1. As ações deverão ser executadas nas áreas de pastagens individualizadas, ou seja, áreas que serão alocadas para pastejo de determinado lote de animais, geralmente estes de mesma categoria. Essa locação deverá ser estabelecida considerando itens físicos e estruturais, como espécies e vigor de forrageiras presentes, bebedouros (naturais ou artificiais), cochos de suplementação mineral e protéica, além de cercas.

Diagrama Causa Efeito em Gestão de Pastagens
Figura 1 – Exemplo de um diagrama de causa e efeito aplicado a um sistema de pastagem
Ferramenta 4Q1POC em Sistema de Pastagens
Figura 2 – Aplicação da ferramenta 4Q1POC num sistema de pastagem
Fluxograma Gestão de Pastagens
Figura 3 – Exemplo de fluxograma aplicado em sistema de pastagem
Exemplo Alocação Pastagens
Figura 4 – Exemplo hipotético de alocação de três áreas de pastagem

A ferramenta fluxograma

O fluxograma é outra ferramenta de qualidade. Trata-se da representação gráfica da sequência de atividades de um determinado processo, exibindo os materiais e serviços que entram no processo e os que dele saem, além das decisões a serem tomadas e das pessoas envolvidas.

A Figura 3 mostra o fluxograma de um processo de avaliação de disponibilidade e altura das folhas, para verificar a estimativa de produção do pasto (previsto versus obtido), e elaborar a relação entre altura média obtida e disponibilidade de forragem para o período.

Mediante a exposição das ferramentas, propõe-se um esboço das atividades do profissional gestor de pastagens. A ausência desse profissional amplia de modo relevante a probabilidade de insucesso no uso de tecnologias ligadas às pastagens. Dadas as características típicas das propriedades que exploram a pecuária, como a extensão da área, o perfil gerencial e a mão- de- obra empregada, o gestor de pastagens mostra-se ainda mais necessário.

Basta acreditar que as tecnologias provêm do homem, e sem o homem não pode se concretizar.

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